"So I think It’s Time For Us to Have a Toast" – Kanye West (Runaway)

O clube como vontade e representação de Bernardo Borges Buarque de Hollanda

Por Luciano Simplicio

Futebol não é o forte do Cactus cultural, mas na oportunidade de acompanhar de perto o lançamento do novo livro de Bernardo Borges Buarque de Hollanda, O clube como vontade e representação, uma atração literária que engloba níveis culturais, o nosso blog não poderia perder essa chance.

capa do livro

Em um país em que o esporte de maior apelo é o futebol, ao cobrir o lançamento do livro de Bernardo Borges, o Cactus propõe a uma reflexão sobre como esse esporte pode ser alçado a status de cultura. O futebol se mostra cada vez mais como um agente transformador, um exemplo é a Copa do Mundo na África.

Nesta última terça-feira, na Blooks Livraria – Praia de Botafogo, o autor recebeu leitores e autografou o livro, sua segunda publicação e contou como  surgiram as torcidas organizadas no Rio de Janeiro. Inícios tortuosos e conflitantes marcam a formação da torcidas cariocas, a escalada de violência catalisou a pesquisa, além disso, Bernardo conta outras curiosidades no livro.

Na cobertura do evento o Cactus Cultural conseguiu uma entrevista com Bernardo Borges, através de e-mail, pois infelizmente, o número de pessoas na livraria não permitiu acesso ao autor, mas mesmo assim ele respondeu algumas perguntas e podemos ver aqui no Cactus.

Bernardo autografando na Blooks Livraria

Cactus: Como surgiu a ideia de escrever o livro abordando a formação das torcidas de futebol carioca e como você conseguiu as informações?

Bernardo: A ideia surgiu da experiência e da observação em estádios de futebol, desde meados dos anos 1980, quando, ainda adolescente, comecei a frequentar o Maracanã. O fenômeno da violência me impressionava e minha curiosidade era um pouco descobrir como e quando ela havia começado. Sendo vinculado a um doutorado de História, a ideia foi historicizar o problema e por isto remeti o foco de meu trabalho para o surgimento e a formação das Torcidas Organizadas entre os anos 1940 e 1980. Minhas fontes foram entrevistas com fundadores e líderes de torcidas, arquivos das torcidas organizadas em suas sedes e jornais.

Cactus: Existem diferenças entre as torcidas formadas no Rio para outros Estado? Quais?

Bernardo: Sim, as diferenças se referem em boa parte a distinções regionais, que podem ser culturais, sociais, políticas. Estive em um debate com o presidente da Fúria Jovem do Botafogo e notei como ele frisava o fato de as torcidas em São Paulo terem a estrutura de Escolas de Samba, com concessões públicas de terrenos, que lhe são dados pela Prefeitura local.

Cactus: Para qual time você torce?

Bernardo: Eu torço para o Clube de Regatas do Flamengo, mas, curiosamente, desde que comecei a pequisa meu envolvimento clubístico tem diminuído. Posso dizer que aprecio todas as torcidas.

Cactus: Na hora de escrever o livro o que mais pesou o lado pesquisador ou o lado torcedor?

Bernardo: É claro que a motivação de torcedor pesa, mesmo que de forma inconsciente, o que requer muito cuidado. Mas creio que cheguei a bom termo e tem-se uma pesquisa que conseguiu ultrapassar a paixão futebolística, o que tornaria o trabalho por assim dizer opinatório, parcial…

Cactus: Atualmente vemos torcidas organizadas em que esse núcleos agridem jogadores, comissão técnica e quem vier (Diguinho no Fluminense, Vagner Love no Palmeiras…). Na sua opinião a que se devem essas atitudes?

Bernardo: As torcidas organizadas procuram aparecer, na cena midiática e esportiva contemporânea, atráves de manifestações violentas. Elas procuram chocar a opinião pública e se valer da intimidação para expressar sua voz dentro da política interna dos clubes. É uma maneira de ter visibilidade e poder no futebol. Acredito que os problemas relacionados à violência entre torcidas no Rio se concentram fora dos estádios, na ida e na volta dos jogos. a polícia ainda não encontrou uma forma de controlar a disseminação dos conflitos nos diversos pontos da cidade. A saída é sempre complexa, uma vez que não depende de um único ato que venha de cima, através de leis ou coisas autoritárias do gênero. Mas o encaminhamento da solução está no diálogo, na ação conjunta e permanente com as facções de torcida, aproximando-se delas, influenciando-as, e não as procurando apenas após incidentes trágicos.

Cactus: Muitos times cariocas começaram nas regatas, existe alguma ligação da torcida da regata com o futebol ou são torcedores distintos?

Bernardo: No livro, relato a descrição de um antigo cronista que se refere às caravanas de torcidas para a ida a regatas fora do Rio, no caso em Niterói. mas acho pouco provável uma filiação direta entre o público de regatas e o de futebol. no princípio, o remo atraía multidões – 100 mil na enseada de Botafogo – ao passo que o futebol era uma modalidade para um público distinto, incluindo-se aí as damas da belle-époque, reunidas no campo das Laranjeiras.

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Nuvem de tags

%d blogueiros gostam disto: